20 julho, 2014

A Morte como conselheira - Rubem Alves


Lembra-te,
antes que cheguem os maus dias,
e se rompa o fio de prata,
e se despedace o copo de ouro,
e se quebre o cântaro junto à fonte,
e se desfaça a roda junto ao poço…
Eclesiastes 12, 1-8
A vida está cheia de rituais para exorcizar a Morte. Agora, quando escrevo, dia 3 de janeiro de 1991, acabamos de passar por dois deles. É claro que não lhes damos este nome, pois o seu sucesso depende de que o Nome Terrível não seja ouvido. Para isto se faz uma barulheira enorme de sinos, fogos de artifício, danças, risos, muita comida, e alegria engarrafada… E tudo isso só para que a voz Dela não seja ouvida… Natal não é isto? Não existe uma tristeza solta no ar? O esforço desesperado de repetir um passado, fazer com que ele aconteça de novo? Encontrei, certa vez, numa loja nos Estados Unidos, um pacotinho de ervas e temperos num saquinho de plástico com o nome: “perfumes de Natal”. Tem de ser aqueles cheiros antigos, de infância. As músicas novas não servem, é preciso que as mesmas dos outros tempos sejam cantadas de novo. E que haja o mesmo rebuliço, os mesmos bolos, as mesmas frutas. Prepara-se a repetição do passado, para se ter a ilusão de que o tempo não passou. Melhor o incômodo da correria e da ressaca do que a dor de ouvir o que Ela está silenciosamente dizendo: “É, mas o tempo passou. Não pode ser recuperado. Você está passando…” Pensar dói muito. O Natal dói muito…. E saímos da depressão da perda por meio de um outro ritual. Tolice imaginar que o tempo passou. Que nada. É um novo tempo que vem. Há muito tempo à espera. “Feliz Ano Novo!” E, no entanto, é tudo mentira.
Certo está o poeta:
Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
o que só agora vejo que deveria ter feito,
o que só agora claramente vejo que deveria ter sido
isto é que é morto para além de todos os Deuses…
Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei.
Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
Esses, sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
Enterro-os no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos… (Álvaro de Campos, Poesias, “Na noite terrível…”)
Não, não, a Morte não é algo que nos espera no fim. É companheira silenciosa que fala com voz branda, sem querer nos aterrorizar, dizendo sempre a verdade e nos convidando à sabedoria de viver.
O que ela diz? Coisas assim:
“Bonito o crepúsculo, não? Veja as cores, como são lindas e efêmeras… Não se repetirão jamais. E não há formas de segura-las. Inútil tirar uma foto. A foto será sempre a memória de algo que deixou de ser… E esta tristeza que a beleza dá? Talvez porque você seja como o crepúsculo…. É preciso viver o instante. Não é possível colocar a vida numa caderneta de poupança…”
“Você sabe que horas são? Está ficando frio… E as cores do outono? Parece que o inverno está chegando…”
“O que é que você está esperando? Como se a vida ainda não tivesse começado… Como se você estivesse à espera de algum evento que vai marcar o início real da sua vida: formar, casar, criar os filhos, separar da mulher ou do marido, descobrir o verdadeiro amor, ficar rico, aposentar… Como se os seus instantes presentes fossem provisórios, preparatórios. Mas eles são a única coisa que existe…”
“E esta música que você está dançando? É de sua autoria? Ou é um Outro que toca, e você dança? Quem é este Outro? Lembre-se do que disse o poeta ‘Sou o intervalo entre o meu desejo e aquilo que os desejos dos outros fizeram de mim’. Mas, se você é isto, o intervalo, você já morreu… Acorde! Ressuscite!”
A branda fala da morte não nos aterroriza por nos falar da Morte. Ela nos aterroriza por nos falar da Vida. Na verdade, a Morte nunca fala sobre si mesma. Ela sempre nos fala sobre aquilo que estamos fazendo com a própria Vida, as perdas, os sonhos que não sonhamos, os riscos que não tomamos (por medo), os suicídios lentos que perpetramos.
“Lembra-te, antes que se rompa o fio de prata e se despedace o corpo de outro”, e que seja tarde demais.
Uma das canções mais belas do Chico eu nunca ouvi tocada no rádio. Tenho perguntado, e pouca gente conhece. Desconfio. É porque ela é a mansa sabedoria da Morte, que ninguém quer ouvir. Diz assim: “O velho sem conselhos, de joelhos, de partida, carrega com certeza todo o peso de sua vida. Então eu lhe pergunto sobre o amor… A vida inteira, diz que se guardou do carnaval, da brincadeira que ele não brincou… E agora, velho, o que é que eu digo ao povo? O que é que tem de novo pra deixar? Nada. Só a caminhada, longa, pra nenhum lugar… O velho, de partida, deixa a vida sem saudades, sem dívida, sem saldo, sem rival ou amizade. Então eu lhe pergunto pelo amor… Ele me diz que sempre se escondeu, não se comprometeu, nem nunca se entregou… E agora, velho, que é que eu digo ao povo? O que é que tem de novo pra deixar? Nada. Eu vejo a triste estrada aonde um dia eu vou parar. O velho vai-se agora, vai-se embora sem bagagem. Não sabe pra que veio, foi passeio, foi passagem. Então eu lhe pergunto pelo amor… Ele me é franco. Mostra um verso manco dum caderno em branco que já se fechou. E agora, velho, o que é que eu digo ao povo? O que é que tem de novo pra deixar? Não. Foi tudo escrito em vão… E eu lhe peço perdão mas não vou lastimar”… Parece até que o Chico e o Jorge Luis Borges entraram de acordo, pois este escreveu coisa muito parecida: “Instantes: Se eu puder viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros. Não tentaria ser perfeito. Relaxaria mais. Seria mais tolo ainda do que tenho sido. Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério. Seria até menos higiênico. Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios. Iria para lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos sopa. Teria mais problemas reais e menos problemas imaginários. Eu fui uma desta pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto de sua vida. Eu era uma destas pessoas que nunca ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas. Se voltasse a viver, viajaria mais leve. Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera e continuaria assim até o fim do outono. Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vez uma vida pela frente. Mas, já viram, tenho 85 anos e sei que estou morrendo…”
É! Embora a gente não saiba, a Morte fala com a voz do poeta. Porque é nele que as duas, a Vida e a Morte, encontram-se reconciliadas, conversam uma com a outra, e desta conversa surge a Beleza. Agora, o que a Beleza não suporta é o falatório, a correria… Ela nos convida a contemplar a nossa própria verdade. E o que ela nos diz é simplesmente isto: “Veja a vida. Não há tempo pra perder. É preciso viver agora! Não se pode deixar o amor para depois. CARPE DIEM!”
Foi esta a primeira lição do professor de literatura do filme A sociedade dos poetas mortos. CARPE DIEM: agarre o dia! E o efeito de tal revelação poética, nascida da reconciliação da Vida com a Morte, é uma incontrolável explosão de liberdade. É só isto que nos dá coragem para arrebentar a mortalha com que os desejos dos outros nos enrolam e mumificam.
Tive um amigo, Hans Hoekendijk, um holandês que esteve prisioneiro num campo de concentração alemão. Contou-me de sua experiência com a morte. A guerra já chegava ao fim, e os prisioneiros acompanhavam num rádio clandestino o avanço de tropas aliadas e já faziam o cálculo dos dias que os separavam da liberdade. Até que o comandante da prisão reuniu a todos no pátio e informou que, antes da libertação, todos seriam enforcados. “Foi um grito de lamentação e horror… seguido da mais extraordinária experiência de liberdade que jamais tive em minha vida”, ele disse. “Se eu morrer dentro de dois dias, então nada mais importa. Não há sentido em me guardar, não há sentido em ser prudente. Não preciso pretender ser outra coisa do que sou. Posso viver a minha verdade, pois nada pode me acontecer. Não preciso de máscaras. Tenho a permissão para a honestidade total. Posso ir ao guarda nazista, que sempre me aterrorizou, e dizer a ele tudo o que sinto e penso… Que é que ele pode me fazer? Posso ir até aquela mulher que sempre amei mas de quem nunca me aproximei (afinal, ela estava com o marido, e naqueles tempos isto era levado em consideração…) e pedir licença ao marido para confessar os sentimentos… Posso dizer tudo o que sinto mas que nunca me atrevi a dizer, por medo”. E me contou dessa experiência fantástica de liberdade e verdade que se tem quando se está pendurado sobre o abismo. A Morte tem o poder de colocar todas as coisas em seus devidos lugares. Longe do seu olhar , somos prisioneiros do olhar dos outros, e caímos na armadilha de seus desejos. Deixamos de ser o que somos para sermos o que eles desejam que sejamos. Diante da Morte, tudo se torna repentinamente puro. Não há lugar pra mentiras. E a gente se defronta então, com a Verdade, aquilo que realmente importa. Para ter acesso a nossa verdade, para ouvir de novo a voz do desejo mais profundo, é preciso tornar-se um discípulo da Morte. Pois ela nos dá lições de vida, se acolhemos como amiga. ” A morte é nossa eterna companheira” – dizia Don Juan, o bruxo. ” Ela se encontra sempre a nossa esquerda, ao alcance do braço. Ela nos olha sempre até o dia que nos toca. Como é possível alguém se sentir importante, sabendo que a Morte o comtempla? O que você deve fazer ao se sentir impaciente com alguma coisa, é voltar-se para sua esquerda e pedir que a sua Morte o aconselhe. Estamos cheios de lixo! É a Morte é a única conselheira que temos. Sempre que você sentir, como acontece sempre, que tudo está indo de mal a pior,e que você se encontra a ponto de aniquilado, volte-se para sua Morte e lhe pergunte se isso é verdade. Sua Morte lhe dirá que você está errado, que nada realmente importa, fora do seu toque. Ela lhe dirá “ainda não te toquei”. Alguém tem que mudar e depressa. Alguém tem que aprender que a Morte é caçadora e que ela se encontra a nossa esquerda. Alguém tem que pedir o conselho da Morte e abandonar a maldita mesquinharia que pertence aos homens que vivem as suas vidas como se a Morte nunca fosse bater no seu ombro.
Houve um tempo em que o nosso poder perante a morte era muito pequeno. E por isso os homens e mulheres dedicavam-se a ouvir a sua voz e podiam tornar-se sábios na arte de viver. Hoje, o nosso poder aumentou, a Morte foi definida como inimiga a ser derrotada, fomos possuídos pela fantasia onipotente de que nos livramos de seu toque. Com isso, nós nos tornamos surdos às lições que ela pode nos ensinar. E nos encontramos diante do perigo de que, quanto mais poderosos formos diante ela( inutilmente, porque só podemos adiar..)mais tolos nos tornamos na arte de viver. E, quando isso acontece, Morte que podia ser conselheira sábia, transforma-se em inimiga que nos devora por detrás. Acho que para recuperarmos um pouco a sabedoria de viver seria preciso que nos tornássemos discípulos e não inimigos da Morte. Mas para isso seria preciso abrir espaço em nossas vidas para ouvir a sua voz.Seria preciso que voltássemos a ouvir os poetas….
Referência
ALVES, Rubem. A morte como conselheira. In: CASSORLA, Roosevelt M. S. (Coord). Da morte. Campinas: Papirus, 1991.

15 julho, 2014

Orientação Profissional/ Granja Viana


“Escolher um trabalho (...) é escolher a forma pela 
qualqueremos participar no mundo em que vivemos”.
- Lucchiari, 2002
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A ESCOLHA PROFISSIONAL
A escolha profissional, durante a adolescência, costuma envolver boa dose de angústia, proveniente da dúvida relacionada à qual profissão exercer, às expectativas familiares e sociais com relação ao futuro e aos medos com relação às condições do mercado de trabalho.
Esse costuma ser um dos momentos mais significativos da adolescência, uma vez que impulsiona o jovem ao desprendimento do seu mundo infantil, à renúncia da dependência, à aceitação de responsabilidades e ao enfrentamento do mundo dos adultos.
Diante do luto da infância e da exposição aos novos desafios, a adolescência costuma ser fortemente marcada por desequilíbrios e instabilidades (Knobel e Aberastury, 1991). Assim, o trabalho de Orientação Profissional aqui proposto, se faz fundamental enquanto apoio a esse processo de luto, enfrentamento e desenvolvimento da identidade do jovem. Dentre seus objetivos fundamentais estão; estimular o autoconhecimento, favorecer o reconhecimento de potencialidades e fortalecer a autoestima.
Concomitantemente, é de extrema importância considerar o cenário atual, no qual as carreiras e o mercado de trabalho são, a cada dia, menos previsíveis. As transformações do capital tecnológico no último século, ocasionaram a reestruturação produtiva, inovações sócio organizacionais, flexibilização das relações de trabalho, criação de inúmeros cursos acadêmicos, dentre outras mudanças (Tolfo e Picinini, 2007).
Atualmente, os processos organizacionais envolvem diversas áreas e funções, exigindo, cada vez mais, que os profissionais integrem diferentes áreas de conhecimento. Além disso, as mudanças no ambiente de trabalho ocorrem com extrema velocidade, o que torna a permanência em funções e áreas, geralmente, algo passageiro (Senge, 1990).
Essas mudanças tornaram a escolha profissional ainda mais complexa o que aponta outro papel fundamental do processo de Orientação Profissional apresentado: promover o debate e o acesso acerca das informações sobre cursos acadêmicos, carreiras e mercado de trabalho.


Assim, essa proposta considera essencial oferecer experiências e reflexões que possibilitem ao jovem, maior consciência de si próprio (habilidades, valores, crenças), das determinantes de suas escolhas e maior conhecimento sobre as condições e possibilidades do seu ambiente, estimulando que faça a melhor escolha nesse momento; coerente com suas possibilidades de concretização e com os seus propósitos de vida. 

COMO?
A proposta se desenvolve por meio de encontros, em grupo ou individuais. Nos encontros o jovem é estimulado a experienciar e refletir acerca de sua escolha profissional através de recursos terapêuticos e informações profissionais.

CONTATO:
Camila S Mayor Fabre - Psicóloga
Tel. (11) 9 9890-3396
E-mail: camila.smfabre@gmail.com



18 julho, 2013

Aprendendo a lidar com o Estresse


Os efeitos do estresse crônico são comumente associados ao estilo de vida acelerado de grande parte da população. Ele é considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a epidemia do século e o motivo de 90% das consultas médicas. Porém, é difícil pensar em formas de desacelerar a vida nos tempos de hoje. O homem moderno precisa gerenciar diversas responsabilidades ao mesmo tempo; trabalho, casa, vida dos filhos, relação conjugal, problemas financeiros e de saúde. E, ainda, é obrigado a conviver em ambientes, principalmente o de trabalho, geralmente, caracterizados pela desconfiança, ansiedade e hostilidade. Diante de tantas demandas, como administrar a vida sem adoecer pelos efeitos do estresse?
Ao contrário do que o lugar comum imagina, estudos da neurociência afirmam que o estresse não é, necessariamente, prejudicial à saúde. Pelo contrário, ele é uma importante resposta biológica para a sobrevivência. Diante de uma ameaça, o corpo precisa reagir para se defender; os batimentos cardíacos e a respiração aceleram, a temperatura corporal aumenta, a mente ganha foco, a atividade do sistema imunológico é reforçada e o sangue flui para os músculos periféricos para que nós possamos lutar com a ameaça ou correr dela. Se o corpo não reage e permanece apático diante do perigo, ele é atacado.
Esta resposta biológica foi desenvolvida ao longo dos milhões de anos de evolução no planeta. Antigamente, o homem precisava dela para fugir de um leão, por exemplo. Hoje, esta resposta é utilizada de forma muito mais frequente, em variados contextos como o meio familiar, trabalho e trânsito. O homem moderno parece viver sob constante pressão e alerta.
Ainda assim, pesquisadores defendem que o problema não está no estilo de vida acelerado, na ambição, competitividade ou nos desafios que o dia a dia nos proporciona, mas na forma como cada um de nós reage à vida. O estresse prejudicial ocorre quando se reage com hostilidade. Esse é o problema!
O significado que damos às nossas experiências ativa diferentes estados emocionais e estes, como diz a neurologista Candace Pert, são acompanhados de uma cachoeira de moléculas de emoção (hormônios e neurotransmissores) a qual afeta todas as células do nosso corpo.  No caso da hostilidade, essas moléculas correspondem ao cortisol. Em excesso, esse hormônio é tóxico; afeta a cognição, a memória e enfraquece o sistema imunológico, responsável pela defesa do organismo. Assim, surgem os famosos efeitos do estresse crônico, como os problemas cardiovasculares, a gastrite, insônia, diabetes e enxaquecas.
Para lidar com o estresse é importante saber que da mesma forma que as emoções negativas são acompanhadas de moléculas bioquímicas tóxicas para o nosso organismo, as emoções positivas geram um “coquetel” de hormônios e neurotransmissores benéficos para a nossa saúde.
Por isso, uma das medidas para gerenciar o estresse, é alimentar emoções positivas através do contato com amigos, músicas que levem a estados emocionais agradáveis, exercícios físicos, massagens e carinhos. Também, pesquisas em neurociências da Universidade de Duisburg-Essen (Alemanha) e de Nova York, evidenciaram que a prática regular da respiração diafragmática, associada a exercícios físicos do Yoga (Ásanas), reduzem os níveis de cortisol e, consequentemente, o estresse. Alguns pesquisadores chegaram a comparar o efeito destas práticas ao uso de medicamentos como os benzodiazepínicos (Rivotril, Lexotan, Diazepan e Frontal), utilizados para controlar transtornos de ansiedade.

Uma vez que a secreção de hormônios está relacionada aos estados emocionais e estes à forma como interpretamos as situações do dia a dia, cabe a todos procurar uma forma mais positiva de vivenciar os desafios que a vida nos oferece encarando estes como valiosas oportunidades de desenvolvimento. 

04 junho, 2013

Como curar a tristeza


A tristeza, talvez, seja um dos estados de espírito de que as pessoas mais se esforçam para se livrar. Geralmente, quando estamos tristes, perdemos o prazer em realizar as atividades do nosso dia a dia, encontramos uma enorme dificuldade em cumprir com as nossas responsabilidades ou iniciar coisas novas e a nossa atenção costuma ficar presa exatamente àquilo que nos faz tristes.
Em alguns casos, esse sentimento assume proporções maiores e se tornam grandes depressões; qualquer recomeço parece ser impossível, a vida fica paralisada e perde o seu sentido. Diante de momentos como esse, recursos como a psicoterapia e a medicação podem se tornar muito valiosos e necessários.
Embora ninguém a queira, a tristeza faz parte da condição humana assim como a raiva, o medo, a alegria, o prazer e o êxtase. E para que a tristeza possa ser dissolvida e ir embora, ela não deve ser suprimida sem que ouçamos o que ela tem a nos dizer.
Muitos de nós aprendemos, desde pequenos, a escondê-la. Não nos ensinam acolher e amar esta parte de nós mesmos. É preciso olhar com olhos de amor e cuidar das nossas dores para que elas parem de doer. Em Canção de enganar tristeza, Vinícius de Moraes e Baden Powel dizem: “Se a tristeza um dia/ Te encontrar triste sozinho/ Trata dela bem/ Porque a tristeza quer carinho/ (...) E dá-lhe um amor tão lindo/ Que quando ela se for indo/ Ela vá contente/ De ter tido o teu carinho”.
A escuta, o acolhimento e a compreensão da tristeza são passos importantes para podermos transformar os aspectos necessários em nossa vida, mas este momento deve ter a sua medida para que a tristeza não fique sendo ruminada e cultivada além do necessário. É importante criar estratégias que de fato nos tirem do estado deprimido.
Segundo Diane Tice, psicóloga da Florida State University, buscar a vida social é uma tática efetiva para a cura da depressão. Os grupos sociais, além de proverem apoio e carinho, podem favorecer acontecimentos agradáveis, que mudam o estado de espírito e que distraem a pessoa deprimida.  
Outro método construtivo é armar situações que possibilitem pequenos sucessos, como resgatar atividades prazerosas há tempo esquecidas. Eventos empolgantes como uma partida esportiva, um show, ou a leitura de um livro edificante ou um filme cômico, também podem contribuir.
Segundo os estudos de Diane Tice, prestar ajuda às pessoas que necessitam e se empatizar com o sofrimento delas é um dos mais poderosos métodos para curar a depressão.
Enfim, a tristeza ou, em alguns casos, a depressão, nos convida a repensar e recriar nosso modo de viver. Os desafios são inerentes à vida e podem ser valiosas oportunidades para descobrirmos nossas forças mais profundas. Ao contrário do que muitos pensam, a felicidade não é a ausência de sofrimento, mas é o estado de espírito que nos leva a viver os desafios da vida com entusiasmo, com coragem para ir além, ao encontro de novos desafios.

Autora: Camila S Mayor Fabre - Artigo publicado no Informativo Bem Informado - Ano VIII - Nº 78 - Maio/Junho de 2013 
* Adaptado do texto publicado aqui no blog em 16/02: Onde mora a felicidade?

27 maio, 2013

Perdoando Deus - Clarice Lispector



Eu ia andando pela Avenida Copacabana e olhava distraída edifícios, nesga de mar, pessoas, sem pensar em nada. Ainda não percebera que na verdade não estava distraída, estava era de uma atenção sem esforço, estava sendo uma coisa muito rara: livre. Via tudo, e à toa. Pouco a pouco é que fui percebendo que estava percebendo as coisas. Minha liberdade então se intensificou um pouco mais, sem deixar de ser liberdade.
Tive então um sentimento de que nunca ouvi falar. Por puro carinho, eu me senti a mãe de Deus, que era a Terra, o mundo. Por puro carinho mesmo, sem nenhuma prepotência ou glória, sem o menor senso de superioridade ou igualdade, eu era por carinho a mãe do que existe. Soube também que se tudo isso “fosse mesmo” o que eu sentia – e não possivelmente um equívoco de sentimento – que Deus sem nenhum orgulho e nenhuma pequenez se deixaria acarinhar, e sem nenhum compromisso comigo. Ser-Lhe-ia aceitável a intimidade com que eu fazia carinho. O sentimento era novo para mim, mas muito certo, e não ocorrera antes apenas porque não tinha podido ser. Sei que se ama ao que é Deus. Com amor grave, amor solene, respeito, medo e reverência. Mas nunca tinham me falado de carinho maternal por Ele. E assim como meu carinho por um filho não o reduz, até o alarga, assim ser mãe do mundo era o meu amor apenas livre.
E foi quando quase pisei num enorme rato morto. Em menos de um segundo estava eu eriçada pelo terror de viver, em menos de um segundo estilhaçava-me toda em pânico, e controlava como podia o meu mais profundo grito. Quase correndo de medo, cega entre as pessoas, terminei no outro quarteirão encostada a um poste, cerrando violentamente os olhos, que não queriam mais ver. Mas a imagem colava-se às pálpebras: um grande rato ruivo, de cauda enorme, com os pés esmagados, e morto, quieto, ruivo. O meu medo desmesurado de ratos.
Toda trêmula, consegui continuar a viver. Toda perplexa continuei a andar, com a boca infantilizada pela surpresa. Tentei cortar a conexão entre os dois fatos: o que eu sentira minutos antes e o rato. Mas era inútil. Pelo menos a contigüidade ligava-os. Os dois fatos tinham ilogicamente um nexo. Espantava-me que um rato tivesse sido o meu contraponto. E a revolta de súbito me tomou: então não podia eu me entregar desprevenida ao amor? De que estava Deus querendo me lembrar? Não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há o sangue. Não só não esqueço o sangue de dentro como eu o admiro e o quero, sou demais o sangue para esquecer o sangue, e para mim a palavra espiritual não tem sentido, e nem a palavra terrena tem sentido. Não era preciso ter jogado na minha cara tão nua um rato. Não naquele instante. Bem poderia ter sido levado em conta o pavor que desde pequena me alucina e persegue, os ratos já riram de mim, no passado do mundo os ratos já me devoraram com pressa e raiva. Então era assim?, eu andando pelo mundo sem pedir nada, sem precisar de nada, amando de puro amor inocente, e Deus a me mostrar o seu rato? A grosseria de Deus me feria e insultava-me. Deus era bruto. Andando com o coração fechado, minha decepção era tão inconsolável como só em criança fui decepcionada. Continuei andando, procurava esquecer. Mas só me ocorria a vingança. Mas que vingança poderia eu contra um Deus Todo-Poderoso, contra um Deus que até com um rato esmagado poderia me esmagar? Minha vulnerabilidade de criatura só. Na minha vontade de vingança nem ao menos eu podia encará-Lo, pois eu não sabia onde é que Ele mais estava, qual seria a coisa onde Ele mais estava e que eu, olhando com raiva essa coisa, eu O visse? no rato? naquela janela? nas pedras do chão? Em mim é que Ele não estava mais. Em mim é que eu não O via mais.
Então a vingança dos fracos me ocorreu: ah, é assim? pois então não guardarei segredo, e vou contar. Sei que é ignóbil ter entrado na intimidade de Alguém, e depois contar os segredos, mas vou contar – não conte, só por carinho não conte, guarde para você mesma as vergonhas Dele – mas vou contar, sim, vou espalhar isso que me aconteceu, dessa vez não vai ficar por isso mesmo, vou contar o que Ele fez, vou estragar a Sua reputação.
… mas quem sabe, foi porque o mundo também é rato, e eu tinha pensado que já estava pronta para o rato também. Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato para mim. É porque só poderei ser mãe das coisas quando puder pegar um rato na mão. Sei que nunca poderei pegar num rato sem morrer de minha pior morte. Então, pois, que eu use o magnificat que entoa às cegas sobre o que não se sabe nem vê. E que eu use o formalismo que me afasta. Porque o formalismo não tem ferido a minha simplicidade, e sim o meu orgulho, pois é pelo orgulho de ter nascido que me sinto tão íntima do mundo, mas este mundo que eu ainda extraí de mim de um grito mudo. Porque o rato existe tanto quanto eu, e talvez nem eu nem o rato sejamos para ser vistos por nós mesmos, a distância nos iguala. Talvez eu tenha que aceitar antes de mais nada esta minha natureza que quer a morte de um rato. Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente. Talvez eu não possa olhar o rato enquanto não olhar sem lividez esta minha alma que é apenas contida. Talvez eu tenha que chamar de “mundo” esse meu modo de ser um pouco de tudo. Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza? Enquanto eu imaginar que “Deus” é bom só porque eu sou ruim, não estarei amando a nada: será apenas o meu modo de me acusar. Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário, e ao meu contrário quero chamar de Deus. Eu, que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse. Porque eu, que de mim só consegui foi me submeter a mim mesma, pois sou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu. Porque enquanto eu amar a um Deus só porque não me quero, serei um dado marcado, e o jogo de minha vida maior não se fará. Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe.

16 fevereiro, 2013

Onde mora a Felicidade?



Salvo raras exceções, a maioria de nós costuma procurar a paz e a serenidade, a solução para o sentimento de solidão e para a angustia no peito, fora de nós mesmos; no marido, na esposa, na promoção do trabalho, no carro novo, nas roupas da moda, na religião, na viagem pra Europa ou pro Himalaia.
Muitos dizem que vivemos para sermos felizes, mas passamos boa parte da vida ou, a vida inteira sem sermos. Vivemos apenas buscando essa tal de felicidade por aí e quando conseguimos o cargo profissional que desejávamos, descobrimos que a felicidade não estava lá. Então, casamos. E quando casamos, desejamos ter filhos e, depois, descasamos. Casamos novamente, compramos carro, casa e no final da vida continuamos a conversar com o mesmo vazio dentro da gente.
Se ela não está fora de nós, onde encontrá-la então? Há quem empreenda esta busca abrindo mão da vida mundana e indo viver em um monastério ou em alguma montanha do Tibet. Realmente, talvez, seja esse o caminho para alguns. Para outros, não. O caminho da reclusão e do silêncio faz sentido quando pensamos que este nos coloca na direção contrária que até então seguíamos, nos tira da direção do outro e nos leva ao encontro de nós mesmos, frente a frente com a nossa alma, sem tudo que temos (posses, status), mas com tudo que somos.
E o que somos além do que temos? O que somos além do que aparentamos ser? Des-cobrir-se, no sentido de desvelar-se, tirar o véu, exige coragem, mas é o primeiro passo e o movimento fundamental para quem quer ser feliz. É preciso coragem para olhar para a criança abandonada dentro de nós, para os nossos próprios medos, monstros, carências, tristezas, para a nossa própria solidão, para tudo aquilo que não queremos ser e que não queremos parecer, mas que fizemos questão de esconder a vida inteira, dos outros e de nós mesmos.
Aprendemos, desde pequenos, a esconder estas partes da gente – “Engole o choro, menino” ou, “Mamãe não gosta de você quando você fica com raiva” -. Não nos ensinam a colocar no colo e a acolher o choro das nossas tristezas, nem a ouvir a nossa raiva e aceitar nossas frustrações. Na nossa necessidade de amor, aprendemos que para sermos amados não podemos ser tristes, nem fracos, nem bravos. E se não aprendemos a aceitar, acolher e amar esta parte de nós mesmos, não ensinamos nossos filhos a fazerem e, assim, vivemos em um mundo em que quase ninguém sabe acolher a si próprio e acolher o outro.
Além disso, formamos e nos formamos em uma sociedade na qual o valor fundamental é o valor econômico. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), até 2020, a depressão será a principal causa por afastamentos no trabalho.  Ou seja, a tristeza, a carência, a raiva e o medo não produzem. Pelo contrário, o consumo da felicidade é o que movimenta a economia; compre um carro, uma jóia, um Ipad, um Iphone, um tennis e seja feliz!
Estes valores são refletidos o tempo todo em nossa vida, marginalizamos qualquer emoção que não seja feliz. Um exemplo disso é observarmos como a medicina tradicional se comporta; ela suprime qualquer sintoma sem antes querer escutar o que a doença tem a dizer. Não é a toa que o consumo de antidepressivos cresceu 49% nos últimos quatro anos.
Mas, a supressão não se dá, somente, mediante Fluoxetina, Sertralina ou tantos outros antidepressivos que existem no mercado hoje em dia. Quantos de nós não afoga a tristeza e a amargura na mesa do bar? Afoga no sentido literal, no sentido de afundá-las na garrafa de pinga ou de cerveja para que não respirem, não falem, não chorem, não se mostrem pra quem quer que seja. Quantos não engatam um relacionamento afetivo atrás do outro, todos frustrados, com o medo de encarar a própria solidão? Quantos empresários, aparentemente bem sucedidos, não escondem sua vida vazia atrás da sua compulsão doentia por trabalho?  A felicidade que vendem por aí é uma felicidade plástica. Falsa e vazia.
É preciso olhar com olhos de amor e cuidar das nossas dores para que elas parem de doer. Em Canção de enganar tristeza, Vinícius de Moraes e Baden Powel dizem:

Se a tristeza um dia
Te encontrar triste sozinho
Trata dela bem
Porque a tristeza quer carinho
E fala sobre a beleza
Com tanta delicadeza
Por não ter nenhum carinho
Que ela só existe
Por não ter nenhum carinho
E dá-lhe um amor tão lindo
Que quando ela se for indo
Ela vá contente
De ter tido o teu carinho.

Há alguns dias atrás li em um texto do Dalai Lama, que a condição para a felicidade é aceitar que o sofrimento faz parte da condição humana. A alegria, o prazer, o êxtase fazem parte de nós, mas a tristeza, a raiva e a dor também. E não há nada de errado com isso.
A maior frustração do ser humano está em acreditar que alcançará a paz eterna, a ausência de conflitos, de dores e, então, será feliz. Pior, a frustração ainda se encontra em acreditar que esta felicidade será alcançada quando se casar, ou quando tiver filhos, ou quando assumir o cargo que tanto almejava. Puro engano. A paz eterna, a ausência de conflitos e a ausência de dor se chama morte.
Se para sermos felizes, precisamos morrer, então que sentido tem a vida? O problema não está na felicidade, mas no significado que atribuímos a ela.
Gandhi diz: “Não existe um caminho para a felicidade, a felicidade é o caminho”. E a felicidade não é a ausência de sofrimento, mas é o estado de espírito que nos leva a viver os desafios da vida com entusiasmo, com coragem para ir além, ao encontro de novos desafios e não de um lugar na vida onde eles não existam.
Às vezes, quando vivemos um momento de sofrimento, a intensidade é tamanha que temos a impressão de que aquela dor irá nos matar, mas é o enfrentamento destas situações que nos fazem entrar em contato com as nossas forças mais profundas, com uma dimensão em nós mesmos, inabalável e indestrutível. ”É somente nos aventurando repetidamente por essas zonas de aniquilação que poderemos tornar firme e estável o nosso contato com o Ser Divino, que está além de toda aniquilação” – Karlfriend Graf Von Durckheim.
O contato com estas forças, genuínas em qualquer um de nós, nos coloca em uma nova posição diante da vida. Acredito que o segredo está em vivermos de peito aberto, em nos disponibilizarmos para a vida, em “abandonar o anseio fútil pela harmonia, pela ausência de dor e por uma vida cômoda e assim descobrir, lutando contra as forças opostas, aquilo que o aguarda além do mundo das polaridades (...)”-  Karlfriend Graf Von Durckheim.
A vida perde o sentido quando paramos de viver, quando morremos em vida.