16 fevereiro, 2013

Onde mora a Felicidade?



Salvo raras exceções, a maioria de nós costuma procurar a paz e a serenidade, a solução para o sentimento de solidão e para a angustia no peito, fora de nós mesmos; no marido, na esposa, na promoção do trabalho, no carro novo, nas roupas da moda, na religião, na viagem pra Europa ou pro Himalaia.
Muitos dizem que vivemos para sermos felizes, mas passamos boa parte da vida ou, a vida inteira sem sermos. Vivemos apenas buscando essa tal de felicidade por aí e quando conseguimos o cargo profissional que desejávamos, descobrimos que a felicidade não estava lá. Então, casamos. E quando casamos, desejamos ter filhos e, depois, descasamos. Casamos novamente, compramos carro, casa e no final da vida continuamos a conversar com o mesmo vazio dentro da gente.
Se ela não está fora de nós, onde encontrá-la então? Há quem empreenda esta busca abrindo mão da vida mundana e indo viver em um monastério ou em alguma montanha do Tibet. Realmente, talvez, seja esse o caminho para alguns. Para outros, não. O caminho da reclusão e do silêncio faz sentido quando pensamos que este nos coloca na direção contrária que até então seguíamos, nos tira da direção do outro e nos leva ao encontro de nós mesmos, frente a frente com a nossa alma, sem tudo que temos (posses, status), mas com tudo que somos.
E o que somos além do que temos? O que somos além do que aparentamos ser? Des-cobrir-se, no sentido de desvelar-se, tirar o véu, exige coragem, mas é o primeiro passo e o movimento fundamental para quem quer ser feliz. É preciso coragem para olhar para a criança abandonada dentro de nós, para os nossos próprios medos, monstros, carências, tristezas, para a nossa própria solidão, para tudo aquilo que não queremos ser e que não queremos parecer, mas que fizemos questão de esconder a vida inteira, dos outros e de nós mesmos.
Aprendemos, desde pequenos, a esconder estas partes da gente – “Engole o choro, menino” ou, “Mamãe não gosta de você quando você fica com raiva” -. Não nos ensinam a colocar no colo e a acolher o choro das nossas tristezas, nem a ouvir a nossa raiva e aceitar nossas frustrações. Na nossa necessidade de amor, aprendemos que para sermos amados não podemos ser tristes, nem fracos, nem bravos. E se não aprendemos a aceitar, acolher e amar esta parte de nós mesmos, não ensinamos nossos filhos a fazerem e, assim, vivemos em um mundo em que quase ninguém sabe acolher a si próprio e acolher o outro.
Além disso, formamos e nos formamos em uma sociedade na qual o valor fundamental é o valor econômico. Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), até 2020, a depressão será a principal causa por afastamentos no trabalho.  Ou seja, a tristeza, a carência, a raiva e o medo não produzem. Pelo contrário, o consumo da felicidade é o que movimenta a economia; compre um carro, uma jóia, um Ipad, um Iphone, um tennis e seja feliz!
Estes valores são refletidos o tempo todo em nossa vida, marginalizamos qualquer emoção que não seja feliz. Um exemplo disso é observarmos como a medicina tradicional se comporta; ela suprime qualquer sintoma sem antes querer escutar o que a doença tem a dizer. Não é a toa que o consumo de antidepressivos cresceu 49% nos últimos quatro anos.
Mas, a supressão não se dá, somente, mediante Fluoxetina, Sertralina ou tantos outros antidepressivos que existem no mercado hoje em dia. Quantos de nós não afoga a tristeza e a amargura na mesa do bar? Afoga no sentido literal, no sentido de afundá-las na garrafa de pinga ou de cerveja para que não respirem, não falem, não chorem, não se mostrem pra quem quer que seja. Quantos não engatam um relacionamento afetivo atrás do outro, todos frustrados, com o medo de encarar a própria solidão? Quantos empresários, aparentemente bem sucedidos, não escondem sua vida vazia atrás da sua compulsão doentia por trabalho?  A felicidade que vendem por aí é uma felicidade plástica. Falsa e vazia.
É preciso olhar com olhos de amor e cuidar das nossas dores para que elas parem de doer. Em Canção de enganar tristeza, Vinícius de Moraes e Baden Powel dizem:

Se a tristeza um dia
Te encontrar triste sozinho
Trata dela bem
Porque a tristeza quer carinho
E fala sobre a beleza
Com tanta delicadeza
Por não ter nenhum carinho
Que ela só existe
Por não ter nenhum carinho
E dá-lhe um amor tão lindo
Que quando ela se for indo
Ela vá contente
De ter tido o teu carinho.

Há alguns dias atrás li em um texto do Dalai Lama, que a condição para a felicidade é aceitar que o sofrimento faz parte da condição humana. A alegria, o prazer, o êxtase fazem parte de nós, mas a tristeza, a raiva e a dor também. E não há nada de errado com isso.
A maior frustração do ser humano está em acreditar que alcançará a paz eterna, a ausência de conflitos, de dores e, então, será feliz. Pior, a frustração ainda se encontra em acreditar que esta felicidade será alcançada quando se casar, ou quando tiver filhos, ou quando assumir o cargo que tanto almejava. Puro engano. A paz eterna, a ausência de conflitos e a ausência de dor se chama morte.
Se para sermos felizes, precisamos morrer, então que sentido tem a vida? O problema não está na felicidade, mas no significado que atribuímos a ela.
Gandhi diz: “Não existe um caminho para a felicidade, a felicidade é o caminho”. E a felicidade não é a ausência de sofrimento, mas é o estado de espírito que nos leva a viver os desafios da vida com entusiasmo, com coragem para ir além, ao encontro de novos desafios e não de um lugar na vida onde eles não existam.
Às vezes, quando vivemos um momento de sofrimento, a intensidade é tamanha que temos a impressão de que aquela dor irá nos matar, mas é o enfrentamento destas situações que nos fazem entrar em contato com as nossas forças mais profundas, com uma dimensão em nós mesmos, inabalável e indestrutível. ”É somente nos aventurando repetidamente por essas zonas de aniquilação que poderemos tornar firme e estável o nosso contato com o Ser Divino, que está além de toda aniquilação” – Karlfriend Graf Von Durckheim.
O contato com estas forças, genuínas em qualquer um de nós, nos coloca em uma nova posição diante da vida. Acredito que o segredo está em vivermos de peito aberto, em nos disponibilizarmos para a vida, em “abandonar o anseio fútil pela harmonia, pela ausência de dor e por uma vida cômoda e assim descobrir, lutando contra as forças opostas, aquilo que o aguarda além do mundo das polaridades (...)”-  Karlfriend Graf Von Durckheim.
A vida perde o sentido quando paramos de viver, quando morremos em vida.



4 comentários:

  1. O dinheiro com certeza não traz felicidade, mas ele manda buscar. Brincadeira à parte, esta frase acaba fazendo sentido em muitas decisões em sua vida. Graças ao sistema capitalista, o dinheiro tornou-se não só um meio de adquirir coisas, mas também um passaporte para várias conquistas. O capital é um "atestado de boas referências" independentemente do modo como ele foi adquirido (licita ou ilicitamente). Fica a primeira pergunta no ar: Isto é bom ou ruim? Depende, pois sabendo que a felicidade é um estado de espírito ficamos felizes quando realizamos determinadas ações, por exemplo: Andar na montanha russa. Precisamos de dinheiro para andar nela, correto? E ao mesmo tempo enquanto estamos percorrendo a pista, não estamos pensando que aquilo é algum tipo de status ou qualquer outra coisa, estamos apenas curtindo a sensação causada por ela. O dinheiro foi um meio para que atingíssemos aquilo. Agora elevando esse exemplo a um patamar ainda maior, ter um avião para poder percorrer caminhos como forma de passeio, a mesma sensação ocorre, não temos outros meios de conseguir a mesma coisa naturalmente, pois não temos asas.
    A falsa ilusão que em contrapartida ocorre é que ficamos dependentes do status que o dinheiro nos trás. Por que uma falsa ilusão? A sociedade adquiriu com a história um péssimo hábito de andar com pessoas de bons dotes com intenções de tirar proveito da situação, seja para desfrutar destes bens ou do status que este o causaria. Por este motivo também o dinheiro é um “atestado de boas referências”.
    Todos nós somos seres humanos, suscetíveis a erros, a desilusões, decepções e outros sentimentos ruins. A falsa ilusão fecha um ciclo quando identificamos que o dinheiro serviu apenas de isca para aproveitadores, que quando o dinheiro se vai, o amor também se acaba.
    Desenvolvendo a outra linha de raciocínio, eu como muitas pessoas, adoraria ter uma casa à beira da praia, com um mirante para ver o pôr do sol nos finais de tarde, um casebre simples, com uma sala aconchegante para as noites frias de inverno, e fresco para as tardes quentes de verão, com uma rede na sacada para ter a vista dos barcos que vão para o seu destino até sumir no horizonte. Eu não posso ter isto, mas conheço muitas pessoas que podem sem abdicar de nada em sua vida, é a classe endinheirada da nossa sociedade. Construir um casebre à beira da praia é o de menos, as autoridades protegem quem tem dinheiro e tudo para eles é simples, principalmente a burocracia.
    Eu acredito que num mundo ideal, todos seriam felizes sem dinheiro, apenas adquirindo produtos e serviços por meio de escambo. Atualmente o dinheiro substituiu esta prática de comércio, e cada vez mais elevando o valor do seu produto a preços irrealistas, paralelamente as pessoas tem preço também, hoje se compra a dignidade de uma pessoa, e não é questão de escolha, é uma condição, encaixando-se em uma vida na sociedade moderna.

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    1. Eduardo,
      Concordo com você quando diz que o dinheiro é o meio pelo qual acessamos grande parte do mundo material. Eu também desejo usufruir o que o mundo pode me oferecer; viagens pelo mundo, uma vida confortável, regalias como idas a restaurantes, shows, etc. E, até o momento presente, o dinheiro é condição.
      Quando “critiquei” a questão relacionada à busca eterna por uma felicidade externa a nós, não foi minha intenção “criminalizar” o desejo por dinheiro e pelo que se alcança através dele. Na verdade, quis levar a atenção para a ilusão de que ele em si, preencha por completo o ser humano e traga uma felicidade plena.
      A busca por dinheiro costuma ser insaciável, quanto mais se tem, mais se quer e essa insaciabilidade é prova de que ele nunca irá trazer a paz e a felicidade que o ser humano busca. Se realmente pudesse trazer tudo, aqueles que o tem sobrando seriam os homens mais felizes do mundo.
      Por outro lado, ele traz sim a possibilidade de experimentarmos o estado de felicidade, ele traz a possibilidade de experienciarmos o prazer de sermos um corpo nesse mundo, mas não é um fim, não é em si, a felicidade.
      Vou procurar aprofundar esta reflexão na próxima publicação, mas as questões levantadas em sua reflexão trazem à tona a relação entre riqueza e pecado, como se o dinheiro nos impedisse de “entrar no céu”. Temos um corpo e vivemos na Terra, negar esta condição, é negar uma imensidão de potencialidades que esta condição nos oferece.
      Osho coloca:
      “O homem foi condicionado contra o corpo [O prazer vivido através do corpo se tornou pecado]. Foi dito por todas as religiões que, se você quer se tornar espiritual [se você quer estar perto de Deus], você tem de tornar-se anticorpo. Se você quer alcançar o outro mundo, você tem de renunciar a este mundo [Terreno].
      Todo o esforço no passado foi o de torná-lo tão pouco vivo quanto possível.
      E o seu corpo é um fenômeno de tamanha beleza! Ele é você. Ele é a sua circunferência e, se você negar a circunferência, você não pode jamais encontrar o centro dela. O centro é o seu ser; ele não é contra o corpo. Ele não pode sobreviver sem o corpo por um único momento; o corpo é o nutrimento dele”.
      OSHO, From Death to Deathlessnes.
      Vamos falar mais sobre isso…

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  2. Simples dizer que a tal felicidade é uma conquista interior, pois há pessoas que possuem tudo que o dinheiro possa comprar e não são felizes e há pessoas que não possuem o básico, mas demonstram felicidade no pouco que conseguem.
    A verdade é que felicidade é sim uma conquista interna, de se sentir feliz com o que se tem. Quem consegue atingir tal gratidão com a vida, consegue ser feliz.
    Não estamos aqui a lazer e obviamente teremos tropeços a vida inteira, como todos os seres que aqui habitam. Porém, a forma de lidar com tais vicissitudes é que fará a diferença para mensurar ser mais ou menos feliz.
    O problema não são os problemas, mas como cada um lida com eles.
    A medida da importância que cada um atribui ao problema vivido, é que trará o peso que aquele problema terá na vida da pessoa.
    O mesmo problema vivido por pessoas diferentes, fatalmente terá consequências e desfechos diferentes, pois depende da forma que cada pessoa irá lidar com ele.
    Eu mesma já vivi problemas gigantescos em dado momento da vida que, após algum aprendizado, os mesmos problemas passaram de forma bem suave. Fatalmente o problema terá o tamanho que você permitir, conforme consiga lidar com ele.
    Não há mágica, há aprendizado, amadurecimento, fé. É preciso testar, para sentir a diferença nos resultados.
    No mais, perder a pretensão de que não podemos sofrer, pois é isso que traz a decepção ao longo de nossas vidas. Sim, teremos problemas e sofrimentos por toda vida, a nossa parte é aprender a lidar com eles da forma mais proveitosa e menos dolorosa.

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    1. Sim, Rê!!! Compartilho a sua opinião e foi esta reflexão que procurei fazer no texto!
      É por tudo isso que a citação do Karlfriend Graf Von Durckheim faz TANTO sentido:
      “(...) Somente na medida em que o homem se expõe repetidamente às aniquilações do mundo surgirá nele aquilo que é indestrutível. Nisso repousa a dignidade do ousar. Logo, o objetivo da prática [da expansão da consciência] não é desenvolver uma atitude que permita ao homem adquirir um estado de harmonia e paz, no qual nada o moleste. Pelo contrário, a prática deve ensinar o homem a deixar-se assaltar, perturbar, empurrar, insultar, quebrar e golpear, ou seja, animá-lo a abandonar seu anseio fútil pela harmonia, pela ausência de dor e por uma vida cômoda e assim descobrir, lutando contra as forças opostas, aquilo que o aguarda além do mundo das polaridades. A primeira exigência é ter coragem para enfrentar a vida (...). É somente nos aventurando repetidamente por essas zonas de aniquilação que poderemos tornar firme e estável o nosso contato com o Ser Divino, que está além de toda aniquilação”.

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